sábado, 9 de maio de 2026

Corações Atípicos

 



"Eu aprendi a me ler

Quando não consigo dormir, me embalo sozinha na cama até o corpo ceder, até a respiração desacelerar…
O nome disso é autorregulação.
Existem alimentos que me causam náusea só de imaginar o gosto, a textura, o cheiro…
O nome disso é seletividade alimentar.
Quando preciso falar em público, minha voz trava, meus olhos enchem de lágrimas, meu corpo se fecha…
O nome disso é ansiedade social.
Quando estou em um shopping ou em grandes avenidas, com muita gente, muito barulho, muitas luzes…
Eu me sinto perdida dentro de mim mesma.
O nome disso é sobrecarga sensorial.
Não suporto cócegas, nem brincadeiras de “lutinha”.
Meu corpo não entende isso como leveza — ele entra em alerta.
O nome disso é hipersensibilidade tátil.
Shows, festas, ambientes intensos… ao invés de alegria, me trazem vontade de fugir.
O nome disso também é sobrecarga sensorial.
Gritos, discussões, vozes alteradas… me atravessam como se fossem perigo real.
O nome disso é hipersensibilidade auditiva.
Por muito tempo, achei que tudo isso eram defeitos.
Que eu precisava “me controlar”, “ser mais forte”, “ser como os outros”.
Mas um dia eu entendi…
Que isso não são falhas.
São formas de sentir o mundo.
E quando eu parei de lutar contra mim mesma,
quando deixei de me forçar a caber onde eu não cabia,
quando comecei a respeitar meus limites como parte de quem eu sou…
Eu aprendi algo essencial:
me respeitar também é me curar.
E desde então,
eu não tento mais ser menos intensa, menos sensível, menos eu.
Eu apenas aprendi a viver
com mais verdade,
mais cuidado…
e muito mais paz."

Rosaura Saraiva

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