sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Superdotação feminina

 


Superdotação feminina ainda é confundida com transtornos psiquiátricos. Por trás de mulheres brilhantes, sensíveis e inquietas, há um perfil cognitivo pouco compreendido, e frequentemente confundido com transtornos psiquiátricos, explica a Dra. Thaíssa Pandolfi.


Por muito tempo, a superdotação associou-se apenas a números altos de QI, genialidade acadêmica ou desempenho excepcional em testes. Mas essa visão limitada tem invisibilizado um grupo crescente de mulheres que vivem uma experiência mental, emocional e existencial muito mais intensa do que a média e, justamente por isso, sofrem em silêncio.

Segundo a médica psiquiatra, Dra. Thaíssa Pandolfi, a superdotação está longe de ser apenas uma vantagem intelectual. “Superdotação não é só pensar rápido ou saber mais. É experimentar o mundo com profundidade, complexidade e intensidade. Essas mulheres refletem desde cedo sobre temas existenciais, têm um senso de justiça muito aguçado, uma criatividade fora do padrão e uma sensibilidade emocional que capta o que não é dito, apenas sentido”, explica a médica.

Esse funcionamento mental mais complexo faz com que mulheres superdotadas apresentem uma curiosidade quase insaciável, aprendizagem acelerada e uma capacidade singular de conectar informações de forma não linear. Ao mesmo tempo, essa intensidade pode se manifestar como hiperfoco em interesses específicos, mergulhos profundos que duram horas, anos ou até uma vida inteira, até que um novo fascínio surja e reorganize toda a atenção. 

A superdotação feminina não é um fenômeno raro, apenas invisibilizado. Artistas como Fabiana KarlaKell Smith e Lady Gaga já trouxeram a público relatos que dialogam com características clássicas das altas habilidades, como sensibilidade emocional elevada, criatividade intensa e percepção ampliada do mundo. 

A sensibilidade emocional elevada, frequentemente confundida com fragilidade, é outro traço central. “Elas sentem demais. Absorvem o sofrimento alheio, a energia dos ambientes e a incoerência entre discurso e prática. Quando isso não é compreendido, surgem quadros de ansiedade, exaustão emocional e uma constante sensação de inadequação”, afirma Dra. Thaíssa. Não é raro que essas mulheres passem anos em consultórios psiquiátricos recebendo diagnósticos equivocados, como transtornos de humor ou de personalidade, quando, na verdade, estão lidando com uma superdotação não reconhecida. 

Outro ponto marcante é o senso de justiça elevado. Pequenas injustiças, contradições éticas ou desigualdades sociais provocam indignação profunda, o que pode gerar conflitos com figuras de autoridade e frustrações recorrentes no ambiente profissional e afetivo. “Elas não conseguem simplesmente ignorar o que não faz sentido moralmente. Isso tem um custo emocional alto”, ressalta a psiquiatra.

A consequência desse descompasso entre o funcionamento interno e o mundo externo é, muitas vezes, o isolamento. Sentir-se “fora do lugar” desde a infância, não se reconhecer nos grupos, carregar crises de identidade e solidão são relatos comuns. “Superdotação não é privilégio. É uma forma intensa de existir. Quando não acolhida, vira sofrimento silencioso. Quando compreendida, se transforma em potência criativa, ética e transformadora”, conclui Dra. Thaíssa Pandolfi. 

Em um momento em que temas como saúde mental feminina, diversidade cognitiva e liderança sensível ganham espaço no debate global. Compreender a superdotação para além dos estereótipos pode ser a chave para libertar talentos que, até agora, foram mais pressionados a se adaptar do que convidados a florescer.

Fonte: Bons Fluidos e Assessoria Márcia Stival


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Autismo na vida Adulta

 




Durante muito tempo, o Transtorno do
Espectro Autista (TEA) foi compreendido como uma condição
exclusiva da infância.

Hoje, sabemos que muitos
adultos recebem o diagnóstico apenas mais tarde,
após anos tentando se adaptar sem entender por que
determinadas experiências sempre pareceram mais
difíceis.

Relatos de adultos diagnosticados tardiamente mostram que as dificuldades sociais, sensoriais e de comunicação estiveram presentes ao longo de toda a vida, mas muitas vezes foram interpretadas como timidez, inadequação, ansiedade ou falha pessoal. O esforço constante para se encaixar, compreender regras sociais implícitas e lidar com estímulos sensoriais intensos costuma gerar exaustão emocional significativa. Questões sensoriais, como hipersensibilidade ou hipossensibilidade a sons, toques, cheiros e ambientes, também aparecem de forma consistente e impactam diretamente o bem estar e a rotina. Além disso, dificuldades na comunicação social, como entender ironias, subtextos ou o ritmo das interações, contribuem para sentimentos de insegurança, ansiedade e isolamento. Muitos adultos relatam ainda o uso frequente do masking, a camuflagem social, como estratégia de sobrevivência. Embora ajude a se adaptar externamente, esse esforço constante costuma ter um custo emocional alto, associado a ansiedade, depressão e sensação persistente de não pertencimento. Compreender o autismo na vida adulta amplia o olhar clínico e possibilita um cuidado mais ético e respeitoso. O diagnóstico não apaga as dificuldades, mas pode oferecer sentido, reduzir a culpa e abrir caminhos para estratégias mais alinhadas com a forma
singular de cada pessoa existir no mundo. Referência:
Autismo em adultos: relatos de vida após um diagnóstico tardio – Gikovate & Féres-Carneiro, 2025

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

 "O trabalho analítico acontece no espaço entre, onde o inconsciente se manifesta...para além da lógica racional.

Considerar esse entre é reconhecer que a subjetividade se constrói não apenas pelo que é dito, mas sobretudo pelo que emerge no intervalo das palavras."

Sophie Colombo

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Ser visto, ser notado, ser tocado, ser...vivo

Historias dos asilos psiquiátricos


Em 1910, nas frias e cinzentas paredes de um asilo psiquiátrico na Alemanha, uma paciente chamada Katharina Detzel fez uma escolha silenciosa e desesperada. Isolada por anos, privada de contato humano e tratada como algo menos que gente, ela voltou-se para o único material que tinha à disposição — o feno de seu colchão — e com ele criou um homem de palha em tamanho real.

Não por amor, mas pela necessidade bruta de sentir a presença de algo ao seu lado.

Em um mundo que a havia esquecido, Katharina moldou um companheiro para lembrar a si mesma que ainda existia.
Para os funcionários do asilo, aquilo era mais uma prova de insanidade.

Mas para Katharina, era um ato de sobrevivência — uma centelha de humanidade em um lugar projetado para apagá-la.
Décadas depois, sua história e sua fotografia ressurgiriam, comoventes e perturbadoras.

Aquela figura de palha não era apenas uma criação, mas um símbolo de resistência — um testemunho da necessidade humana de conexão, mesmo no limite da dor.
Porque, mesmo nas sombras mais profundas do sofrimento, o desejo de ser visto, tocado e lembrado jamais desaparece.


terça-feira, 16 de setembro de 2025

Legoterapia

O brinquedo de montar Lego como ferramenta conectiva na psicologia, educação, consultoria, terapias...



Legoterapia é uma abordagem terapêutica que utiliza peças de LEGO® como ferramenta para promover o desenvolvimento de habilidades em crianças e adultos, especialmente aqueles com transtornos do desenvolvimento ou dificuldades de aprendizagem. Esta terapêutica estimula a interação social, a comunicação, a resolução de problemas, a criatividade e a concentração, através de atividades estruturadas ou livres com os blocos de montar.

O Brinquedo de montar LEGO® - O sistema LEGO é um brinquedo cujo conceito se baseia em partes que se encaixam permitindo muitas combinações. Criado pelo dinamarquês Ole Kirk Kristiansen, é fabricado em escala industrial em plástico feito desde 1934, popularizando-se em todo o mundo desde então. É muito famoso e as crianças do mundo todo brincam. Hoje em dia existem várias séries. Em fevereiro de 2015, foi considerada a marca mais poderosa do mundo, de acordo com estudo realizado pela empresa de consultoria Brand Finance.

A Legoterapia, ou Terapia Baseada em LEGO, foi criada em Honolulu, no final dos anos 90, como uma alternativa de tratamento para as crianças com atraso no desenvolvimento. É considerada  método terapêutico que utiliza as peças de LEGO para desenvolver competências sociais, emocionais e cognitivas em crianças, especialmente aquelas com desenvolvimento atípico, como o autismo. O objetivo é criar um ambiente estruturado e colaborativo onde as crianças aprendam a se comunicar, a resolver problemas, a planejar e a interagir em grupo, utilizando o brincar como ferramenta principal.

A abordagem da Legoterapia baseia-se na ideia de que as crianças podem se comunicar e expressar seus sentimentos, pensamentos e desafios por meio da construção e manipulação de peças de LEGO. Isso permite uma forma não verbal de expressão, muitas vezes menos intimidante do que a comunicação verbal direta. A terapia aproveita a natureza lúdica e criativa do brinquedo de montar LEGO para criar um ambiente seguro e facilitar a interação entre terapeuta e cliente.


Estudos educacionais e médicos no Reino Unido e nos EUA constataram que grupos que usaram LEGO como recurso educacional e terapeutico ajudaram seus alunos e pacientes a desenvolver e reforçar as habilidades de jogo e habilidades sociais. Dentre os benefícios destacados e comprovados da Legoterapia estão:

  • Comunicação
  • Atenção
  • Concentração
  • Partilha e troca
  • Resolução de problemas compartilhada

Como colocado recentemente em livro pelo psicoterapeuta René Schubert (2023): “o brinquedo LEGO com sua diversidade de cenários, personagens e peças atua como recursos de consultoria, coaching, atendimento terapêutico - sendo utilizado para: Exposição de dificuldade, Resolução de Conflitos, Foco na Solução, Posicionamento Consciente, Formas, Posturas e Comunicação e outras possibilidades a partir das construções de cenários em 3D. Estimula a conexão, expressão, percepção, insights, feedback, storytelling, ludicidade e criatividade - ou seja, Aprender Divertindo-se!”



Por meio da brincadeira, intuição e possibilidades diversas trabalha-se habilidades e recursos no grupo de crianças, jovens ou adultos presentes, para que o mesmo possa ser levado adiante para sala de aula, grupos de estudos, reuniões sociais, atendimentos e consultoria.

A Legoterapia é indicada para:

  • Crianças com transtornos do desenvolvimento, como autismo e TDAH;
  • Crianças com dificuldades de aprendizagem;
  • Pessoas que buscam aprimorar suas habilidades sociais e de comunicação;
  •  Indivíduos que desejam desenvolver a criatividade e a resolução de problemas;
  • Profissionais da área da saúde e educação que buscam novas ferramentas terapêuticas e pedagógicas;
  • Como recurso de consultoria e coaching;
  • Apresentações, Reuniões, planejamento e estratégias em empresas;

A Legoterapia se mostra uma abordagem terapêutica versátil e eficaz, oferecendo um ambiente lúdico e seguro para o desenvolvimento de diversas habilidades.

 

Referências:

SCHUBERT, R  - Construindo pontes, cenários e um mundo de possibilidades – o uso do Lego como recurso terapêutico para crianças autistas (in) Um Amor Azul – Os desafios e o caminho para lidar com a pessoa autista. Coordenação de Neia Martins e Viviane Oliveira, Editora Conquista, São Paulo, 2023

SCHUBERT, R  - Conectando e Construindo Possibilidades - Brincar de Lego na Ludoterapia (in) Orientação Familiar, Volume 3. Coordenação Cris Rayes. Literare International Books, São Paulo, 2024

SCHUBERT, R. - Building Bridges, Scenarios, Worlds of Possibilities - The Use of Lego as a Therapeutic Resource with Autistic Children. MAR Neurology, Neurosurgery & Psychology,  United Kingdom, March 2024

Lego: a história por trás da criação do popular brinquedo (2023) - https://www.bbc.com/portuguese/articles/clmeggy3l9xo

Lego como recurso terapêutico. Audiobook (2025) - https://www.youtube.com/watch?v=o_SFGUptYsg

Terapia a partir do uso do brinquedo LEGO (2022) - https://reneschubert.blogspot.com/2022/08/terapia-partir-do-uso-do-brinquedo-lego.html

 A Historia do Lego - https://www.youtube.com/watch?v=Wih3NK2z_0I


 


quinta-feira, 4 de setembro de 2025

A importancia da figura paterna na psicologia


Na psicologia, a figura paterna é crucial para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo de uma criança, promovendo segurança, independência e a introdução de limites e regras sociais. O pai, e por extensão outros cuidadores ( figura paterna ), estimula a exploração do mundo, o autoconhecimento e a formação do caráter, servindo como um modelo de conduta e referência para o desenvolvimento da identidade e da autoestima. 

O pai, e por extensão outros cuidadores ( figura paterna ), estimula a exploração do mundo, o autoconhecimento e a formação do caráter, servindo como um modelo de conduta e referência para o desenvolvimento da identidade e da autoestima. 

O papel do pai vai muito além de prover sustento ou presença física. A figura paterna exerce uma influência profunda no desenvolvimento emocional e psicológico dos filhos. 

🔹 Segurança emocional – Pais presentes transmitem sensação de proteção, ajudando a criança a lidar melhor com medos, frustrações e desafios.

🔹 Construção da autoestima – O reconhecimento, incentivo e afeto paterno fortalecem a confiança e a percepção positiva que a criança tem de si mesma.

🔹 Modelos de relacionamento – A forma como o pai se relaciona com o(a) parceiro(a), com os filhos e com as pessoas ao redor serve de referência para como a criança aprenderá a se relacionar na vida adulta.

🔹 Saúde mental a longo prazo – Estudos mostram que filhos de pais participativos tendem a apresentar menor risco de depressão, ansiedade e dificuldades emocionais no futuro.


A psicoterapia pode ser uma ferramenta útil para lidar com as angústias da paternidade e para auxiliar crianças que cresceram sem a presença de uma figura paterna, permitindo a cura de feridas e a busca por força interior. 

A presença ativa, o diálogo aberto e o carinho paterno constroem vínculos afetivos sólidos, fundamentais para a formação da identidade e da saúde mental dos filhos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Epidemia ( de empobrecimento) Cognitivo


"Vivemos uma epidemia cognitiva. Não é transmitida por vírus, mas pela passividade mental. A cada scroll no celular, a cada curtida automática, treinamos o cérebro para seguir a massa sem questionar. O resultado? Um declínio cognitivo coletivo, onde a falta de senso crítico vira norma e o pensamento independente se torna quase exótico.


E aqui vai a verdade incômoda: eu mesmo já me peguei diversas vezes seguindo a manada… sem nem saber por quê. Talvez porque é confortável. Gostosinho. Evita conflitos. Mas é nesse conforto que a gente se anestesia.

Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca fomos tão superficiais. Segundo a UNESCO (2023), apenas 13% dos jovens brasileiros conseguem interpretar textos longos com análise crítica. O relatório do Pisa 2022 mostra uma queda de mais de 20 pontos em leitura nos últimos 10 anos. E a Microsoft (2019) revelou que a capacidade média de atenção humana caiu para 8 segundos, menos que a de um peixe dourado.

Sherry Turkle, em Reclaiming Conversation, explica que a avalanche de estímulos digitais está corroendo nossa habilidade de refletir. Daniel Kahneman, no clássico Rápido e Devagar, mostra como o “Sistema 1” (rápido e intuitivo) domina, evitando o esforço do “Sistema 2” (lento e analítico). É o efeito manada operando em alta velocidade — alimentado por algoritmos que reforçam o que já pensamos, sem espaço para o contraditório.

A juventude, moldada pelas redes sociais, está mais exposta a narrativas prontas e menos disposta a fazer perguntas incômodas. Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, alerta que não é falta de inteligência, mas um esgotamento mental crônico que sufoca a capacidade de pensamento crítico.

George Orwell já havia previsto, em 1984: “A massa manter-se-á dócil, desde que não tenha consciência”. Hoje, a consciência é terceirizada para influenciadores, algoritmos e manchetes rápidas.

Para combater essa epidemia cognitiva, não basta colocar mais tecnologia nas escolas. É preciso ensinar, desde cedo, a fazer a pergunta fundamental: “Por que acredito nisso?”. Sem esse treino, seremos consumidores dóceis, repetidores de ideias alheias — achando que pensamos por conta própria.

Ou despertamos agora… ou continuaremos, felizes e distraídos, confortavelmente anestesiados, rumo à obediência absoluta."

Reflexão do Professor Willians Fiori postado no Linkedin