Durante muito tempo, o Transtorno do
Espectro Autista (TEA) foi compreendido como uma condição
exclusiva da infância.
Hoje, sabemos que muitos
adultos recebem o diagnóstico apenas mais tarde,
após anos tentando se adaptar sem entender por que
determinadas experiências sempre pareceram mais
difíceis.
Relatos de adultos diagnosticados tardiamente
mostram que as dificuldades sociais, sensoriais e de
comunicação estiveram presentes ao longo de toda a
vida, mas muitas vezes foram interpretadas como
timidez, inadequação, ansiedade ou falha pessoal. O
esforço constante para se encaixar, compreender
regras sociais implícitas e lidar com estímulos
sensoriais intensos costuma gerar exaustão emocional
significativa.
Questões sensoriais, como hipersensibilidade ou
hipossensibilidade a sons, toques, cheiros e
ambientes, também aparecem de forma consistente e
impactam diretamente o bem estar e a rotina. Além
disso, dificuldades na comunicação social, como
entender ironias, subtextos ou o ritmo das interações,
contribuem para sentimentos de insegurança,
ansiedade e isolamento.
Muitos adultos relatam ainda o uso frequente do
masking, a camuflagem social, como estratégia de
sobrevivência. Embora ajude a se adaptar
externamente, esse esforço constante costuma ter um
custo emocional alto, associado a ansiedade,
depressão e sensação persistente de não
pertencimento.
Compreender o autismo na vida adulta amplia o olhar
clínico e possibilita um cuidado mais ético e
respeitoso. O diagnóstico não apaga as dificuldades,
mas pode oferecer sentido, reduzir a culpa e abrir
caminhos para estratégias mais alinhadas com a forma
singular de cada pessoa existir no mundo.
Referência:
Autismo em adultos: relatos de vida após um
diagnóstico tardio – Gikovate & Féres-Carneiro, 2025